quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A negação da maçã

Uma das características mais comuns dos seres humanos é a dificuldade em assumir responsabilidades. Aliás, isso tem uma explicação bíblica. No livro do Gênesis (origens) já encontramos o primeiro exemplo de fuga da autoria dos nossos atos. Deus perguntou a Adão: "Por que você comeu aquela fruta que Eu havia proibido?" Adão imediatamente tratou de arrumar um culpado, ou melhor, uma culpada, e não poupou a Eva, sua própria mulher - "A mulher que me destes como esposa, ela me ofereceu e eu comi". Em outras palavras, Adão estava culpando dois, sua companheira e próprio Criador que (na opinião dele) deveria ter sido mais cuidadoso ao criá-la. Eva por sua vez também foi criativa e buscou na criatura mais próxima uma saída para a sinuca - "A serpente enganou-me, e eu comi". Pronto, assim estava tudo resolvido, a serpente não teria defesa pois nem sabia falar. Mas acontece que o conhecimento prometido pela serpente, que adviria do fruto cobiçado e ilícito, não foi suficiente para conscientizar o imprudente casal que o Todo Poderoso não administra as coisas de forma humana, e sobrou pra todo mundo.

Na sala de aula não é diferente. O professor recebe muitas incumbências e dele se espera o cumprimento de várias obrigações. Chegar no horário, trazer a aula preparada, ter domínio pleno da matéria, ser paciente, ser condescendente, ser justo, ser didático (que muitos alunos confundem como a arte de ensinar a quem não quer aprender), e por ai vai. Acontece que há algum tempo nós estamos aprendendo a reivindicar nossos direitos para exercermos melhor a cidadania. Os canais para isso são cada vez mais numerosos: Procon, ISO 9000, ABNT, Defensoria pública, ombusman, ouvidoria...

Fui então pesquisar no Houaiss e eis a definição para cidadania sob a rubrica "termo jurídico":

"condição de pessoa que, como membro de um Estado, se acha no gozo de direitos que lhe permitem participar da vida."

Não me dei por satisfeito. Fui então até a palavra cidadão com a seguinte acepção:

"indivíduo que, como membro de um Estado, usufrui de direitos civis e políticos garantidos pelo mesmo Estado e desempenha os deveres que, nesta condição, lhe são atribuídos"

Vejam que a definição para cidadão menciona "direitos" e "deveres" (grifo meu). Ora, parece que alguns alunos se fixam somente nos direitos e se esquecem dos seus deveres. De que adianta o professor chegar no horário se o aluno não chega; preparar a aula se o aluno não lhe dá a devida atenção; dominar a matéria se o aluno quer conversar com o colega sobre assuntos irrelevantes e alheios ao que está sendo tratado e ainda ser didático se o aluno não quer aprender? O professor Olavo de Carvalho tem uma comparação genial para tarefas impossíveis: é como tentar convencer um suicida do valor da vida, que tendo pulado do 20º andar, já passou pela janela do 5º em direção ao solo.

Outro dia um aluno me perguntou na classe sobre como faria para acompanhar a explicação, pois ele não possuia o livro-texto. Ah !, preciso avisar o leitor que não me conhece que eu leciono num curso superior. O que responder num caso desses? Simplesmente você tem que buscar nas suas entranhas uma reação de suprema educação e evolução tomística (que não possuo) para conseguir manter a compostura.

Voltemos aos instrumentos de cidadania. Quando percebemos um longínquo senso de coerência no discente que não cumpre a parte que lhe cabe, ainda poderíamos dizer que há vida em Júpiter. Mas no momento da avaliação institucional não raro o professor é execrado por não explicar direito o que o aluno não queria ouvir, não dominar o assunto que o aluno não estava interessado em saber, não usar o livro-texto que ele não se deu ao trabalho de comprar, mesmo subsidiado e parcelado pela instituição. É inconcebível, mas é verdade. E não podemos esquecer que a instituição mantem toda uma estrutura de laboratórios, biblioteca, instalações, sanitários, etc, que muitas vezes é alvo de críticas depreciativas in limine, sem sequer ter sido utilizada.

Peço aos leitores-alunos para refletirem sobre as questões aqui colocadas e na impossibilidade de uma conduta virtuosa, ao deixar-se tragar pelas veleidades que seduzem os seres, fato que é perfeitamente aceitável dentro da condição humana e antropologicamente indecifrável, vamos pelo menos enfrentar as conseqüências das escolhas, tratando com equidade o docente que cumpre a sua parte na tarefa de ensinar. Dessa forma, a ovelha desgarrada continuará não fazendo um bem a si, mas pelo menos não prejudicará o restante do rebanho e o seu líder. Como disse o psiquiatra austríaco Dr. Victor Frankl, é preciso construir uma Estátua da Responsabilidade na Costa Oeste dos Estados Unidos, para complementar a Estátua da Liberdade na Costa Leste.

domingo, 13 de setembro de 2009

Pensar, meditar e contemplar !

Hugo de São Vitor foi um dos maiores professores que o mundo já conheceu. Nasceu na Saxônia (hoje Alemanha) em 1096, mas foi em Paris no mosteiro de São Vitor que ele edificou sua grande obra pedagógica. Suas visões da alma racional como o pensamento, a meditação e a contemplação que foram concebidas num ambiente profundamente religioso também podem ser analisadas sob uma ótica laica.

Já não aconteceu conosco de martelarmos um problema sem acharmos uma solução e depois, com calma, após um bom repouso encontrarmos a resposta? Que mistério haverá no fato de quando o nosso cérebro se afasta do problema, conseguimos encontrar a saída?

Penso que vivemos num mundo onde há vários fatores que favorecem a dispersão. Podemos citar o telefone (ainda mais agora móvel), os emails, o msn, o Orkut, as incessantes cobranças da nosso cotidiano corporativo. A vida tornou-se uma sucessão de interrupções. E por falar em interrupção, vocês sabiam que o computador trabalha através de interrupções? Sim, por isso que em programação falamos em “responder a eventos”. Quando você move o mouse, clica em algum ponto da tela, aperta uma tecla ou conecta um periférico você dispara um evento para o qual o programador deve estabelecer uma instrução computacional que responda à ação que o usuário tomou.

Se você está pensando que a vida moderna nos compara a um computador, não está longe de acertar. Mas voltemos ao nosso grande Hugo de São Vitor, com sua contemplação. Muitas vezes ouvimos falar na expressão “você não faz nada, só fica pensando na vida...”. Porém essa afirmação é tão falaciosa quanto afirmar que um burro tem penas. O fato de estar pensando, ou absorto em algum ato contemplativo jamais poderia classificado como ação nenhuma. O cérebro precisa desse expediente para perpassar com calma tudo que ele absorveu sobre determinado assunto e vagar sobre os mares sem horizontes precisos para associar os dados e chegar a uma conclusão. Enganam-se os que pensam que a idade média foi só feudalismo e inquisição. Nessa época floresceram técnicas de estudo cujos frutos nutriram Ricardo de São Vitor (discípulo direto) e São Tomás de Aquino.

Não é por acaso que o Eclesiastes menciona que no luto aprendemos mais que nas festas, pois a balbúrdia é inimiga da concentração, do estudo, da contemplação e consequentemente da sensatez e da fecundidade intelectual.

sábado, 12 de setembro de 2009

Olá

Criei este espaço para trocarmos informações importantes e úteis que venham aprimorar nosso quadro referencial de conhecimentos. Nesta primeira mensagem, gostaria de fazer uma referência ao Professor Francisco Sassano, à quem sou grato pela oportunidade de ter ingressado no mundo acadêmico.