sexta-feira, 23 de abril de 2010

A função do diploma

Quando abrimos um dicionário, percebemos que há muitas palavras com significados que, à primeira vista, nos parecem iguais. Mas se existem palavras diferentes, também sua aplicação deve ser diferenciada. É o caso da palavra "querer" e "desejar". A palavra querer nos remete à palavra vontade, à algo que queremos atingir e para isso devemos modificar o nosso meio. Gosto de uma frase que diz : "a vida nos dará poucos presentes, precisamos aprender a roubar" . É evidente que o sentido da palavra "roubar" nesse caso não se refere à uma questão de contravenção, mas à uma questão de transformação.

O objetivo com o qual o aluno ingressa num curso superior deveria ser a busca de uma transformação interior, visando um "eu" idealizado, modificado, ou seja, aprimorado diante do seu "eu" de partida. Uma projeção feita imaginando-se o final da estrada, que incentivaria a sua própria caminhada. Como se eu tivesse a vontade de aprender a tocar violão, imaginando-me num barzinho sendo aplaudido por inúmeras pessoas e assediado por autógrafos. Notem que não usei a palavra desejo, mas vontade. Desejo nos remete à uma coisa passiva, uma dádiva, uma concessão, um prazer advindo da gratuidade de sermos o que somos sem fazermos nada por isso.
Já a vontade nos remete à atividade, à ações na direção de algo, à ruptura de uma situação criada por pessoas, circunstâncias ou condições do meio, alheio ou contrário àquilo que aspiramos.

Dessa forma, penso, o objetivo do aluno num curso superior deveria ser o da auto-transformação e não algum tipo de destaque pessoal dentro da comunidade. Acredito que deveríamos almejar o aperfeiçoamento pessoal como meta primeira, sendo a ascenção pessoal uma consequência e não um objetivo. Mas muitas vezes não é o que acontece. O anseio pelo destaque pessoal se revela dentro da própria sala de aula. É a comparação do pessoal com o coletivo. É a preocupação do "eu com a "classe" e não o "eu" atual com o "eu" anterior.

Os sinais são os mais variados. "Por que eu tirei 6 e o colega do lado tirou 8, sendo que sabemos as mesmas coisas?", "6,5 não é a nota que eu merecia!", "Estudei tanto e o professor só vai dar 2 pontos máximos nessa prova, e quem não estudou vai ter tanta nota quanto eu". São expressões que percebemos na sala de aula que revelam uma visão míope dos verdadeiros benefícios que um certificado de conclusão pode trazer para o formando. Uma linha de raciocínio imediatista, pueril, mesquinha e sem um propósito à longo prazo.

O aluno precisa ter em mente que o diploma é uma presunção de habilidades e capacidades que precisam ser demonstradas na vida profissional. Para isso é importante aproveitar para aprender e não apenas tirar notas. O aprendizado é dolorido e exige ruptura. Precisa de esforço, de suor. Não de recreio. Goethe dizia que o talento se desenvolve na solidão do estudo e o caráter na agitação do mundo. Portanto, a conquista do estudo é algo individual e não coletivo.