sexta-feira, 21 de maio de 2010

Superficialidades

Percebo o mundo atual cada vez mais filho da propaganda em vez de ser orientado pelo pensamento, pela reflexão e pela análise. Os trabalhos meticulosos, detalhistas, perdem espaço para coisas mais práticas. Não importa se é bom, o que importa é que é prático - time is money ! - mas muitas vezes o que é prático é fugaz. Uma das características dos trabalhos ou obras de qualidade é a sua capacidade de resistir ao tempo. Tome como exemplo os desenhos clássicos da Walt Disney, da Looney Tunes, da Hanna Barbera. Foram feitos há décadas e continuam encantando gerações. As obras dos grandes compositores como Bach, Beethoven, Chopin e Rachmaninov que praticamente fez dois concertos (o 1º. não é considerado pela crítica), mas são composições monumentais e de difícil execução. Estou lendo atualmente o livro “A Riqueza e a Pobreza das Nações” do Professor David Landes, com mais de setecentas páginas. Um trabalho de uma vida inteira sobre a história econômica do mundo. Agora, quanto tempo tudo isso demorou para ser elaborado?

É possível perceber a invasão da superficialidade na reação das pessoas à algo que se queira mostrar. Se você exibe um texto – “vou dar uma lida”; uma entrevista, “vou dar uma olhada”. Nem os velórios escaparam: “Fulano morreu? Vou dar uma passada lá.” Fiquei sabendo que já existem nos Estados Unidos serviços funerários “drive thru”. Você entra com seu carro, vê o defunto, faz uma oração e volta para o trabalho. Prático não? Imagine dizer para uma criança que para ser pianista é preciso estudar nove anos na primeira fase! Ela vai descartar na hora.

Outro dia escutei uma frase: “o ótimo é inimigo do bom”, e tive que concordar em alguns aspectos. Se você for comer um lanche, certamente vai preferir um excelente. Mas se esse lanche demorar uma hora, você vai optar pelo fast-food, óbvio. As empresas ouvem de seus clientes sempre duas palavrinhas: qualidade e preço. E tem que ser rápido. O problema está na contaminação desse conceito no mundo acadêmico. Uma aula não é uma palestra motivacional, e às vezes penso que muitos alunos assim o desejariam que fosse. Participar de uma aula é uma atividade de atenção, de disciplina, de empenho. Você não pode “dar uma passada na classe”.

A escola, no dizer do Professor José Maria e Silva, não é lugar de vanguarda, mas de retaguarda. A academia é o cartório do conhecimento. Não se associa à rapidez, eficiência ou proatividade. Deve ser como o movimento dos astros, você não percebe, mas caminha.