domingo, 22 de maio de 2011

“Tô pagando !”

Na década de 70, no auge da ditadura militar, havia um famoso bordão que era o “Sabe com que tá falando ?” . Esse pensar nada mais era do que um corolário da imposição da autoridade sobre as leis. Aquela idéia do cargo acima do Direito.

A democracia, segundo José Afonso da Silva (curso de Direito Constitucional Positivo), “repousa sob três princípios fundamentais: maioria, igualdade e liberdade”. Segundo Olavo de Carvalho, a democracia é em síntese um mecanismo de “proporção de poderes”, uma vez que todos os poderes são autoritários, mas limitando-se entre si, produzem o equilíbrio necessário à equiparação de forças, essencial para se evitar tiranias.

Quando se encara tudo sob a ótica da possibilidade econômica, a democracia perde essa tensão necessária à auto-delimitação do raio de ação das forças institucionalizadas e entramos então no autoritarismo. Por esse motivo não existe ditadura boa, pois nelas não temos um sistema de “frenagem” de arbitrariedades, e ficamos à mercê da falibilidade humana.

Já me deparei com muitas situações em que, por qualquer animosidade que ocorra em sala de aula, o aluno quer levar imediatamente o assunto para a coordenação. Na verdade, nada vai ser resolvido pela direção da escola, é apenas uma medida para “saciar” a vaidade do cliente no papel de aluno.

A lógica é a seguinte, “sou aluno, estou pagando e então o professor tem que me respeitar”. Perceberam a inversão de valores? O aluno se esquece que é ele quem deve respeito ao docente primeiramente e não o contrário. Desnecessário dizer que o professor deve respeitar o aluno, não porque ele “está pagando”, mas por ser inerente ao bom alvitre. A coordenação, dentro da minha visão, não é um aparelhamento administrativo que se presta ao aluno, mas ao professor.

O problema é que dentro da epidemia de igualdade e padronização que assola o mundo, as pessoas se esquecem da velha “hierarquia”. O mundo não é igual, as pessoas não são iguais, e há sim necessidade de haver mandante e subalterno. Por isso existem os assistentes, os diretores, os presidentes, os santos e acima de todos nós Deus. E quando a escala hierárquica é quebrada assistimos a desordem imperar. Por esse motivo os pais ficam inseguros diante dos filhos, os professores ficam inseguros diante de seus alunos e certamente essas pessoas que não se submetem às hierarquias também não serão respeitadas quando tiverem subordinados, pois o mundo que elas estão criando é justamente esse.

Fala-se muito em humildade, mas o que será humildade ? Padre Marcelo Rossi menciona sempre que "humildade é reconhecermos os nossos próprios limites". Será que o aluno tem ciência que, ao levar um fato banal ao conhecimento do coordenador, não seria ele o arrogante da estória ? Ele (o aluno) está percebendo que está tomando de um profissional caro para a instituição (que ele mesmo paga), um tempo precioso com uma bobagem que poderia ser resolvida com o próprio docente em uma outra ocasião, e que nesse mesmo instante há muitos outros assuntos tão mais importantes do que picuinhas a serem resolvidas, e para o benefício de muitos ?

Mas a "síndrome do tô pagando" parece já instalada em nossa cultura e não me espantaria em ver - imaginem - alguém entrar num teatro e ligar um rádio no meio da peça e ser admoestado e ainda dizer: “Tô pagando !”

Que você acha ?

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